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Entre Bancos e Jazigos: As consequências da "financeirização" do luto na capital paulista

Publicada em: 03/04/2026 23:15 -

A privatização do serviço funerário em São Paulo, iniciada em 2023, prometia modernização e eficiência. No entanto, nem tudo são flores, coroas e homenagens. Passados dois anos da concessão, alguns fatos começam a chamar atenção, como a substituição da tradição funerária por uma agressiva engenharia financeira. No centro dessa questão está o Grupo Maya, consórcio que administra o Bloco 3 da capital paulista, e que hoje personifica as tensões entre o lucro de curto prazo e a dignidade no atendimento às famílias enlutadas.

Recentemente, o Grupo Maya foi citado em diversas reportagens que detalham o "Caso Banco Master", onde as conexões financeiras e o suporte de crédito da instituição ao grupo funerário vieram à tona. Esse vínculo acendeu um sinal de alerta sobre como operações financeiras podem influenciar diretamente a manutenção de cemitérios e a qualidade do atendimento em momentos de luto, trazendo para o debate público questões sobre como um modelo de privatização coloca o serviço funerário na mesma prateleira de investimentos de risco.

Diferente de outros consórcios que operam na cidade e possuem em sua base grupos funerários com décadas de história e bom atendimento à população, o Grupo Maya nasceu como uma Sociedade de Propósito Específico (SPE), com raízes no setor de seguros e capitais. Liderado pela Usebens, o grupo não trouxe para a mesa a expertise do atendimento funerário, mas sim a capacidade de estruturação de garantias financeiras.

Essa estrutura está profundamente ligada ao ecossistema do Banco Master. Através de fundos de investimento e garantias de crédito, a instituição financeira tornou-se o pilar que sustenta a operação do Maya. Para o mercado, o serviço funerário de São Paulo passou a ser visto não apenas como uma prestação de serviço público, e de grande interesse para a população, mas como um ativo financeiro de alta previsibilidade de caixa.

A Conta da Outorga e o Peso na Ponta

O modelo de licitação adotado pela Prefeitura de São Paulo privilegiou quem ofereceu o maior valor de outorga fixa. O Grupo Maya venceu o seu lote ao desembolsar cerca de R$ 160 milhões. Esse montante, pago à vista para os cofres públicos, criou uma pressão financeira imediata: para remunerar os investidores e o banco garantidor, a empresa precisa de um retorno rápido e volumoso.

As consequências dessa "matemática do luto" são sentidas pela população na ponta do serviço. Relatos de cobranças insistentes por itens opcionais de luxo e a dificuldade de acesso às gratuidades garantidas por lei tornaram-se queixas frequentes nos canais de defesa do consumidor.

Os dados da SPRegula (Agência Reguladora de Serviços Públicos do Município de São Paulo) e do Procon-SP não dão margem para dúvidas: o Grupo Maya acumula o maior volume de autos de infração e reclamações entre as concessionárias da capital. No site Reclame Aqui, também há diversos relatos dos consumidores. Até a comunicação corporativa do grupo deixa a desejar. Enquanto o site e as redes sociais exibem promessas de modernização e atendimento humanizado, a realidade nas necrópoles sob sua responsabilidade, como os cemitérios do Lageado, Parelheiros e Saudade, conta outra história.

A gravidade da situação chegou ao Legislativo paulistano em novembro de 2024, quando a Câmara Municipal de São Paulo realizou audiências públicas que colocaram o Grupo Maya no centro de denúncias pesadas. Vereadores e munícipes relataram casos de suposta extorsão e falhas éticas inaceitáveis. Alguns episódios, repercutidos pela imprensa e documentados em atas oficiais, chamaram a atenção e acirraram os questionamentos sobre a capacidade da empresa em gerir um patrimônio tão sensível.

Em uma das denúncias, foi relatado que ao realizar o sepultamento de um familiar no Cemitério da Saudade (Itaquera), a família foi informada de que os restos mortais de outros parentes que estavam no jazigo da família haviam "sumido" durante uma reforma feita pela concessionária. O caso gerou revolta, pois além do sumiço, houve relatos de cobranças para que a situação fosse "resolvida".

Outro exemplo citado pelos vereadores ilustra a pressão financeira sobre o luto: taxas de manutenção dos cemitérios, que antes estavam na faixa de 600 Reais por ano, saltarem para cifras acima de 3 mil reais, muitas vezes sob ameaça de perda do jazigo familiar.

Este cenário levanta uma questão fundamental para as futuras licitações em todo o país: o serviço funerário pode ser tratado como uma concessão de infraestrutura comum, como rodovias ou aeroportos? Ao contrário de outros setores, o manejo do luto lida com a vulnerabilidade emocional extrema e com a saúde pública.

Quando a estrutura de um atendimento funerário está amarrado a estratégias de alavancagem bancária e fundos de investimento, o risco de desumanização aumenta. A busca por dividendos para satisfazer garantias financeiras pode, na prática, sufocar os investimentos necessários na manutenção de cemitérios históricos e no atendimento digno às famílias de baixa renda.

A liderança em infrações e o descontentamento popular nos serviços do Bloco 3 são sinais de alerta. Para que a privatização não seja sinônimo de precarização, a fiscalização precisa ser mais do que burocrática, ela deve ser punitiva e corretiva. O serviço funerário é um direito humano e um dever do município, mesmo quando delegado à iniciativa privada. O "lucro sobre a morte" não pode, sob hipótese alguma, se sobrepor ao respeito à memória e ao acolhimento das famílias.


Nota da Redação: Os fatos aqui narrados baseiam-se em dados públicos de registros comerciais, relatórios de órgãos reguladores e queixas documentadas em canais oficiais de defesa do consumidor.  Mantemos nossos canais abertos para que o Grupo Maya, a Usebens, o Banco Master ou a Prefeitura de São Paulo enviem seus esclarecimentos e notas oficiais, que serão publicados na íntegra em nossas plataformas.

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